A nova NR-1 e o ponto cego das empresas na agenda de saúde mental
Por Mara Turolla, Head de Diversidade e Inclusão LHH
June 11, 2026 - 9:35 PM

A atualização da NR-1 marca um ponto de inflexão na forma como as empresas brasileiras precisam encarar a saúde mental no ambiente de trabalho. O que antes orbitava o campo das boas práticas e iniciativas de bem-estar passa, agora, a ocupar um espaço formal na gestão de riscos ocupacionais, com exigências claras de identificação, plano de ação e evidências.
Na prática, isso significa que fatores como sobrecarga, assédio, pressão por metas, ambientes tóxicos e ausência de segurança psicológica deixam de ser tratados como questões subjetivas e passam a integrar o radar regulatório das organizações. Esse movimento não acontece por acaso.
Segundo a Organização Mundial da Saúde, transtornos como ansiedade e depressão geram perdas globais de produtividade estimadas em 1 trilhão de dólares por ano. O impacto é direto, mensurável e crescente. Ao incorporar os riscos psicossociais à NR-1, o regulador reconhece que a saúde mental não é apenas uma pauta de cuidado, mas uma variável crítica para a sustentabilidade dos negócios. Ainda assim, existe um ponto cego relevante na forma como muitas empresas estão reagindo a essa mudança.
Grande parte das organizações já iniciou algum tipo de ação. Programas de bem-estar, benefícios voltados à saúde mental, campanhas de conscientização e canais de apoio se tornaram mais comuns nos últimos anos. Esses movimentos são importantes e devem ser valorizados. Mas eles não são suficientes para atender ao que a NR-1 exige.
A nova lógica desloca o foco da reação para a prevenção, mais do que isso, exige atuação sobre a origem dos riscos. Os riscos psicossociais raramente nascem de falhas formais em processos e emergem da forma como o trabalho é estruturado e conduzido no cotidiano. Estão nas decisões sobre metas e prazos, na qualidade das relações entre líderes e equipes, no nível de autonomia concedido, na clareza das prioridades e na cultura que orienta comportamentos. Em outras palavras, estão profundamente enraizados na liderança e na cultura organizacional. Isso cria uma lacuna importante entre o que é estruturado tecnicamente e o que é vivido na prática.
A adequação à NR-1 exige, de um lado, um conjunto de ações técnicas fundamentais. A elaboração do Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), os diagnósticos, os enquadramentos legais e a gestão de indicadores são etapas indispensáveis e normalmente conduzidas por especialistas em Segurança e Saúde do Trabalho. No entanto, cumprir essas etapas não garante, por si só, a redução efetiva dos riscos. O que a norma implicitamente demanda vai além: a capacidade da organização de transformar comportamentos. Isso implica preparar lideranças para exercer uma gestão mais sustentável, capaz de equilibrar performance e bem-estar. Implica desenvolver ambientes onde a segurança psicológica permita que problemas sejam identificados antes de se tornarem críticos. Implica revisar práticas culturais que, muitas vezes, perpetuam sobrecarga, silenciam conflitos ou normalizam dinâmicas disfuncionais.
Esse é um tipo de transformação que não acontece por decreto, nem apenas por ajuste de processo. Ela exige desenvolvimento, consistência e intencionalidade.
É nesse contexto que ganha relevância uma atuação complementar à frente técnica. Se, por um lado, é necessário mapear e estruturar os riscos, por outro, é indispensável atuar sobre os comportamentos que os geram no dia a dia. Organizações que conseguem integrar essas duas dimensões tendem a avançar de forma mais consistente. Não apenas no cumprimento da norma, mas na construção de ambientes de trabalho mais saudáveis, produtivos e resilientes. A atualização da NR-1, portanto, não deve ser interpretada apenas como uma nova exigência regulatória. Ela é, na essência, um convite à maturidade organizacional. A pergunta que se coloca não é apenas se a empresa está em conformidade. Mas se ela está preparada para sustentar, na prática, um modelo de trabalho que não produza os riscos que agora precisa reportar.